terça-feira, 17 de setembro de 2013
Festa de Nossa Senhora da Guia 2013
domingo, 1 de setembro de 2013
Correcao fraterna em Sao tomas de Aquino
SOBRE A CORREÇÃO FRATERNA - 1ª PARTE - OBJEÇÕES
Escrito por Santo Tomás de Aquino Acessos:
QUESTÕES DISPUTADAS S. TOMÁS DE AQUINO
DA CORREÇÃO FRATERNA.
(1269-1272)
Questão única
Da correção fraterna
(Dividida em dois artigos).
Primeiramente, pois, discute-se se a correção está no preceito; - 2°. se a ordem da correção fraterna está no preceito.
ART. 1 - SE A CORREÇÃO FRATERNA ESTÁ NO PRECEITO.
(2-2, quest. 33, art. 2; e 4 Sent., dist.19, quest. 2, art. 2, questiona. 2).
1. Existe a questão da correção fraterna e, primeiramente, discute-se se ela está no preceito. E parece que não. De fato, os preceitos divinos não são contrários a si mesmos. Contudo, encontra-se o preceito divino de não argüir o pecador; pois é dito em Prov IX, 8: Não desejes argüir o escarnecedor, para que ele não te odeie. Logo, a correção fraterna não está subordinada ao preceito.
2. Contudo, não se deve dizer que ali se proíba de redargüir o escarnecedor que despreza a correção, e que ele se torne pior a partir dela. Ao contrário, o pecado é a fraqueza da alma, segundo o Salm VI, 3: Tende misericórdia de mim, Senhor, porque sou fraco. Mas aquele a quem se impõe a cura do fraco não deve-se omitir, ainda que em virtude da sua contrariedade e do seu desprezo: porque, nesse caso, maior é o perigo, quando se despreza o remédio; donde o médico se esforçar para curar o insensato. Logo, sobretudo, se um homem é obrigado a curar um irmão delinqüente, corrigindo-o, ainda que este o desprezasse, não se deveria omitir a correção.
3. Além disso, o preceito divino não deve ser omitido em virtude do desprezo do outro: de fato, a verdade da vida não deve ser abandonada por causa do escândalo, como está exposto em Jerônimo. Assim, se a correção fraterna estivesse subordinada ao preceito, não deveria ser omitida, em virtude do desprezo do outro.
4. Ademais, não se deve fazer o mal, para que advenha o bem, como é exposto pelo Apóstolo, em Rom III. Logo, pela mesma razão, não se deve omitir o bem, para que não advenha o mal. Desse modo, se a correção fraterna fosse um bem subordinado ao preceito, não deveria ser omitida, em virtude do mal do escândalo ou do desprezo daquele que é corrigido.
5. Além do mais, em nossas obras, tanto quanto possamos, devemos imitar a Deus; como se dizem Ef V, 1: Sede imitadores de Deus, como seus filhos caríssimos. Mas Deus não omite o bem, evidentemente, a infusão da alma racional, ainda que resulte daí a mancha vergonhosa do pecado original. Logo, de modo semelhante, o homem não deve omitir o bem da correção, ainda que resulte daí o seu desprezo ou a sua ruína, caso esteja ela subordinada ao preceito.
6. Além disso, diz o Senhor, em Ez I 19: Se tiveres anunciado ao ímpio e ele não tiver se afastado de sua impiedade, ele próprio, de fato, morrerá na iniqüidade; tu, porém, terás libertado a tua alma. Logo, não se deve omitir a correção, ainda que aquele que deva ser corrigido não se emende por meio da correção.
7. Ademais, a correção do delinqüente é mais útil do que a sua punição. Contudo, o juiz não se omite de punir o delinqüente pelo fato de ele não se emendar com a pena. Assim, se a correção fraterna estivesse subordinada ao preceito, não deveria alguém omitir a correção por causa do desprezo ou do escândalo daquele que é corrigido. Logo, não parece que a correção fraterna esteja subordinada ao preceito.
8. Além do mais, o preceito divino não obriga ao impossível. Mas corrigir todos os delinqüentes é impossível: porque infinito é o número dos tolos, como está exposto em Eclel, 15. Logo, a correção fraterna não está subordinada ao preceito.
9. Entretanto, não se deve dizer que o homem é obrigado a corrigir apenas aqueles que se apresentem a ele para ser corrigidos. Ao contrário, se a correção fraterna está no preceito, segue-se que, a partir de tal preceito, o homem se constitui devedor do seu irmão, para que o corrija. Contudo, o homem que está obrigado a alguém por algum débito corporal não deve esperar que esse alguém se aproxime de si, mas deve procurá-lo, para restituir a ele aquilo que lhe deve. Logo, sobretudo, se a correção fraterna estivesse no preceito, o homem deveria procurar aquele a quem corrigir e não esperar que tal pessoa dele se aproximasse.
10. Além disso, se a correção fraterna estivesse no preceito, então a indevida omissão da correção se ria um pecado mortal. Contudo, isso é falso, na medida em que tal negligência se encontra, algumas vezes, até em homens santos; pois diz Agostinho, no livro 1 d?A Cidade Deus (por volta da metade do cap. IX), que não apenas os inferiores, mas, em verdade, até os que são possuidores de um grau de vida superior, abstêm-se de repreender os outros, por causa de alguns vínculos de poder ou de desejo, e não em virtude dos ofícios da caridade: não me parece, assim, que estas coisas sejam sem importância, pois também os bons são flagelados juntamente com os maus. Logo, a correção fraterna não está no preceito.
11. Ademais, transgredindo um preceito, alguém peca mortalmente, ainda que não o faça diretamente contra a caridade; como diz Bernardo (em Da Dignidade do Amor Divino, por volta da metade do cap. VI), afirmando que, mesmo quando Pedro negou a Cristo, a caridade não foi extinta. Logo, se a correção fraterna estivesse no preceito, aquele que a omitisse pecaria mortalmente, ainda que não o fizesse por desprezo, agindo quase imediatamente contra o preceito.
12. Além do mais, todos os preceitos da lei divina se reduzem aos preceitos do Decálogo. Contudo, a correção fraterna não está subordinada a algum preceito do Decálogo, como fica claro para aquele que percorre cada um deles. Logo, a correção fraterna não está subordinada ao preceito.
13. Além disso, o que está subordinado aos preceitos divinos é eficaz para a consecução de um fim. Mas uma advertência fraterna não é suficiente para a correção de alguém, nem um sermão de advertência é eficaz para isto, como diz o filósofo no livro X da Ética (último capítulo), e como está exposto em Ecle. VII, 14: Considera os trabalhos de Deus, porque ninguém pode corrigir aquele que ele tenha desprezado.Logo, a correção fraterna não está no preceito.
14. Ademais, ninguém deve-se intrometer no que não faça parte do seu arbítrio. O homem que tenha pecado contra Deus não faz parte do nosso arbítrio, como diz Jerônimo sobre Mateus. Logo, em tais circunstâncias o homem não deve- se intrometer, e, assim, corrigir um irmão geralmente não está subordinado ao preceito.
15. Além do mais, ninguém está desobrigado da observância ao preceito, em virtude de pecado. Contudo, um pecador não deve corrigir o outro, pois diz Isidoro, no livro Do Maior Bem, Livro III (cap. XXXII), que não deve corrigir os vícios alheios aquele que esteja sujeito a vícios. Logo, a advertência fraterna não está subordinada ao preceito.
16. Além disso, ninguém traz para si a condenação por observância de preceito divino. Entretanto, alguns trazem para si a condenação, corrigindo os outros, segundo Rom II, 1: Naquilo que julgas os outros, condenas a ti mesmo. Logo, a correção fraterna não está no preceito.
17. Ademais, ninguém deve to mar para si o que não diz respeito ao seu dever, segundo II Cor X, 13: Não nos gloriamos em excesso, mas conforme o limite da medida com a qual Deus nos determinou. Corrigir os delinqüentes parece ser de ver de um superior: porque também no corpo humano os membros superiores movem os inferiores e, no universo, os corpos mais elevados movem os menos eleva dos. Logo, outros, que não os escolhidos, não são obrigados à correção fraterna.
18. Além do mais, aquilo que de vemos dedicar ao próximo, por débito da caridade, deve ser dedicado a todos. Mas a correção não deve ser destinada a todos: pois é dito, em 1 Tim V, 1: Não repreendas o mais velho, onde diz a Glosa (ordin.): a fim de que ele, permitindo-se ser reprimido por alguém mais jovem, não se exaspere; donde também Dioniso repreendeu o monge Demófilo, por ter corrigido um sacerdote. Logo, a correção fraterna não está subordinada ao débito da caridade.
19. Além disso, os preceitos divinos se ordenam para a caridade e a paz, segundo Tim 1, 5: O fim do preceito é a caridade. Contudo, pela correção fraterna freqüentemente se perturba a caridade e a paz, segundo Terêncio: A verdade gera o ódio. Logo, a correção fraterna não está no preceito.
Entretanto, contrariamente a isso, existe a afirmação de Agostinho, no livro sobre a palavra do Senhor (um pouco antes da metade do sermão 16): Caso não tenhas cuidado de corrigir, tornaste-te pior do que aquele que pecou. Mas aquele que pecou o faz contra o preceito. Logo, aquele que não cuida de corrigir [também] o faz contra o preceito e, desse modo, a correção fraterna está subordinada ao preceito.
Além do mais, sobre isso se afirma em Mat XVIII: Repreende-o entre ti e ele somente, diz a Glossa (ord.): assim, peca aquele que, vendo seu irmão ter pecado, cala-se, como senão se dedicasse ao pecador. Mas aquele que não se dedica ao pecador o faz contra o preceito.
Ademais, no preenchimento do preceito da caridade, devemos confirmar a Deus, segundo Ef V, 1: Sede imitadores de Deus, como seus filhos caríssimos. Entretanto, como se diz em Prov III, 12: Deus ama aqueles que repreende. Logo, como estamos unidos a partir do preceito do Senhor de amar, parece que, a partir do preceito, devemos corrigir os irmãos.
Além disso, em Ecl. XVII, 12, diz- se que Deus ordenou a cada um cuidar do próximo. Logo, [correção fraterna] está subordinada ao preceito, a fim de que o homem tenha à frente o cuidado para a salvação do próximo, corrigindo-o.
Correção fraterna, uma opção ou um dever?
Evangelho
Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-las, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra será também desligado no Céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a Terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos Céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles" (Mt 18, 15-20).
Quem não corrige seu próximo, causa dano não somente a ele mas também a si próprio. Ver-se-á privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever, e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I - A correção, grande meio de salvação
Santo Afonso Maria de Ligório escreveu uma bela obra intitulada "A oração, grande meio de salvação".
| Sagrada Família - Pintura Cuzquenha - Casa |
| dos Arautos do Evangelho, Toronto |
Ao penetrarmos no âmago do Evangelho deste XXIII Domingo do Tempo Comum, chegamos a uma conclusão parecida: a correção fraterna é um grande meio de salvação, pois bem pode o destino eterno de alguém depender da aceitação às correções que lhe sejam feitas.
Esta é a matéria que a Liturgia de hoje nos leva a considerar: o dever da correção fraterna e a necessidade de bem recebê-la.
II - Qual é o filho a quem seu pai não corrige?
Nas ofensas pessoais, injúrias, ou mesmo nos defeitos que observemos na conduta de outros - sobretudo faltas concernentes à Fé e aos costumes, com risco de produzir algum escândalo - não podemos deixar de advertir nosso próximo, seja por indiferença nossa, seja, pior ainda, por desprezo. E para pôr em prática a norma do Senhor, expressa no versículo acima, nosso zelo deve ser cheio de fervor.
São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem a obrigação de corrigir e não o faz.1 Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-seá, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.
O mesmo se passa no campo da botânica, pois quanto mais fértil um terreno, mais se deve trabalhá-lo para evitar que se transforme em bosque e, depois, em mata.
Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.
A obrigação de advertir
A primeira responsabilidade - reconhecer o próprio erro - é de quem o comete. Porém, o zelo, a prudência e o amor a Deus cabem a quem tem a obrigação de advertir. "Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente" (Pr 13, 24). Portanto, é falsa ternura deixar de aplicar uma necessária correção, julgando com essa omissão poupar alguma amargura a quem dela necessita. Quem assim se omite, em realidade não só é conivente com a falha praticada, mas demonstra querer mal a quem precisaria do apoio de uma palavra esclarecedora.
| Se o superior deixa de advertir os que lhe são |
| confiados, é claro sinal de que não se sente |
| amado como um pai |
A reciprocidade nesse amor deve ser uma característica de quem recebe o aviso ou repreensão: "Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem caias no desânimo quando Ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e acha nele a sua complacência como um pai em seu filho" (Pr 3, 11-12).
Se o superior deixa de advertir os que lhe estão confiados, é claro sinal de que não se sente amado como um pai; ou não ama o inferior como filho, e neste caso não é raro que dele venha até a murmurar. Ao escrever aos hebreus, São Paulo não receia afirmar: "Sede perseverantes sob o castigo.
Deus trata-vos como filhos. E qual é o filho a quem seu pai não corrige? Se, porém, estais isentos do castigo, do qual todos são participantes, então sois bastardos e não filhos legítimos" (Hb 12, 7-8). Pois, de fato, o remorso, a dor de nossas faltas, o peso de consciência, constituem um inestimável dom de Deus.
"Não poupes a vara a teu filho"
Cornélio a Lápide, em sua famosa obra de comentários sobre as Sagradas Escrituras, assim se exprime sobre esta questão: "Não poupes ao menino a correção; se o castigares com a vara, ele não morrerá, diz o Livro dos Provérbios (Noli subtrahere a puero disciplinam; si enim percusseris eum virga, non morietur). Castiga-o com a vara e salvarás sua alma do inferno (Tu virga percuties eum et animam eius de inferno liberabis) (23, 13-14). A correção é para o menino o que o freio é para o cavalo e o aguilhão para os bois.
"Os pais que são demasiadamente indulgentes com seus filhos não os castigam, mas os expõem aos suplícios do inferno. Quem tem excessiva indulgência para com seu filho, é o seu mais cruel inimigo. Assim, pais e mães, se amais vossos filhos, aplicai-lhes a vara das correções, para não acontecer que eles vão parar no inferno; se os livrais daquelas, será para condená-los a este. Escolhei! "Repetimos: a salvação e a felicidade dos filhos resultam de uma boa educação e da justa severidade dos pais.
Pelo contrário, uma condescendência licenciosa e a falta de correção são o princípio da má conduta e da condenação dos filhos: eles caem em excessos e crimes que os levam à desgraça eterna.
Quantos filhos, no inferno, maldizem os seus pais e os encherão de imprecações durante os séculos dos séculos, por terem negligenciado repreendêlos, corrigi- los e castigá-los, tornando-se assim causa de sua eterna perdição! "Compreende-se o ódio desses desgraçados, porque tais pais lhes deram, não a vida, mas a morte; não o Céu, mas o inferno; não a felicidade, mas a desgraça sem fim e sem limites. O menino guarda até sua velhice e até a morte os costumes de sua infância e de sua juventude, de acordo com as palavras da Sagrada Escritura: ‘O caminho pelo qual o jovem começou a andar desde o princípio, dele não se afastará mesmo quando envelhecer. (Adolescens juxta viam suam etiam cum senuerit non secedet ab ea) (Pr 22, 6).
A árvore que cedo se entorta continua com sua má inclinação até ser cortada e lançada ao fogo".2
| É falsa ternura deixar de aplicar uma neces- |
| sária correção, julgando com essa omissão |
| poupar alguma amargura a quem dela neces- |
| sita. |
Dever de gratidão de quem é corrigido
Na vida comum, não é raro acontecer o caso de sairmos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal-colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos.
Ora, maior motivo temos para agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.
Inclusive as considerações daqueles que trilham as veredas do paganismo mostram irem no mesmo sentido os ditames da sabedoria humana neste particular.
Plutarco afirma que nós deveríamos pagar bem aos nossos adversários porque dizem as verdades a nosso respeito. Os amigos, segundo ele, só sabem bajular, adular e lisonjear. 3 É, aliás, o que encontramos nas relações habituais de hoje em dia, ou seja, não nos deparamos com alguma correção a não ser quando se estabelece uma inimizade, só aí acabamos por conhecer o que realmente os outros pensam sobre nós.
Hugo de São Vítor sintetiza de modo sábio os bons efeitos da correção.
Quando é aceita com humildade e gratidão, ela detém os maus desejos, coloca freio às paixões da carne, derruba o orgulho, apazigua a intemperança, destrói a superficialidade e reprime os maus movimentos do espírito e do coração.4 Por isso é que ganhamos um irmão quando somos ouvidos com boa disposição da parte de quem corrigimos, pois lhe devolvemos a verdadeira paz de alma e o reconduzimos ao caminho da salvação.
III - Correção amistosa diante de testemunhas
"Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas".
O empenho de salvar nosso irmão deve ser penetrado de forte zelo. Caso tenha sido infrutífera a advertência a sós, não se deve abandonálo, pelo contrário, é preciso insistir.
A orientação dada aqui pelo Divino Mestre não visa preencher o procedimento exigido pelo Deuteronômio: "Sobre o depoimento de duas ou três testemunhas morrerá aquele que tiver de ser morto. Mas não será morto sobre o depoimento de uma só. [...] Ambos os contendores comparecerão diante do Senhor, na presença dos sacerdotes e dos juízes que estiverem em exercício naqueles dias" (Dt 17, 6; 19, 17). Pelo contrário, ela tem por objetivo utilizar o instinto de sociabilidade como poderoso elemento de pressão psicológica para tentar "ganhar o irmão".
Portanto, a fama e o decoro do infrator serão objeto de todo o cuidado possível.
| A denúncia deve ser feita com espírito cristão |
| se os acusadores se movessem por espírito |
| de ódio ou de vingança, por puro egoísmo ou |
| por inveja, deveriam ser tidos por delatores |
| rasteiros |
E a este comentário deve-se acrescentar o que diz a Glosa: "Ou para que, caso ele diga que não pecou, as testemunhas provem que pecou".7
IV - O bem da própria Igreja
"Se recusa ouvi-las, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano".
Ao chegar a esse estágio, tornou- se patente que o método amigável fracassou; o culpado persistirá em seu ódio, em suas mazelas, ou em seus erros, e nesse caso não caberá senão recurso à Igreja, aquela instituição prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo que seria fundada sobre a pedra chamada Pedro. Permanece ainda em foco o zelo pela alma do culpado e por seu bem particular, mas outro bem se torna presente: o da própria Esposa de Cristo.
Já não pertencem ao Rebanho
Se ele não der ouvidos à voz da Igreja, deverá ser considerado como um publicano ou gentio. Será indispensável haver um rompimento de relações. Nenhum vínculo nos unirá a ele. Ver-se-á excluído tal qual os pagãos ou os publicanos, que não eram admitidos pelos judeus na comunicação do culto e das orações. A consideração de todos a seu respeito será como a de uma pessoa perniciosa que poderia colocar em risco a perseverança dos demais; daí a necessidade de evitarem o seu convívio.
Pobre daquela pessoa que não ouve a voz da Igreja ou que despreza o timbre e a sonoridade dessa voz. Poderá ela levantar-se contra sua autoridade, discutir sobre seus deveres, menosprezar suas correções ou condenações. A palavra do Senhor, porém, é firme como uma rocha: "O Céu e a Terra passarão, mas as minhas palavras não passarão" (Mt 24, 35).
Tal pessoa já não pertencerá ao Rebanho do Bom Pastor; não mais terá direito ao nome de católico, apostólico e romano... Quem dá as costas à Igreja de Jesus Cristo será considerado como um gentio ou publicano aos olhos de Deus.
Essa denúncia deve ser feita com espírito cristão. Assim procederam os criados da parábola quando, com tristeza, comunicaram a falta do seu companheiro ao rei (cf. Mt 18, 31). Se os acusadores se movessem por espírito de ódio ou de vingança, por puro egoísmo ou por inveja, deveriam ser tidos por delatores rasteiros; mas, procedendo assim, eles não podem ser vistos como personagens abjetos e mal conceituados.
Deus manda que os repreendamos e afastemos
O católico, quando acusa, o faz por amor e com amor. Levando em consideração que o pecador não poucas vezes poderá vir a constituir um perigo para o bem comum e, portanto, para a própria sociedade, não denunciálo será uma omissão contra a caridade, ou até mesmo comodidade egoísta e covarde. Não é incomum encontrarmos essa omissão como vício praticado até no interior de algumas comunidades religiosas; omissão que acaba por transformar-se em desabafo e se desdobra, muitas vezes, em comentários difundidos entre os demais sobre as infrações destes ou daqueles culpados, verdadeiras murmurações que às vezes ultrapassam os limites da calúnia.
Essa falta de caridade tem conseqüências maléficas sobre o próprio infrator, que muito lucraria se fosse conhecido como tal. Pois a situação de repudiado por todos os seus conhecidos faria crescer nele o senso de vergonha e poderia servir-lhe de um bom meio de conversão, conforme ensina São Jerônimo:
"Entretanto, se tampouco a esses ele quer escutar, então deve-se dizer isso a muitos, para que o detestem e, assim, aquele que não pôde ser salvo pela vergonha salve-se pelas afrontas".8 Por isso mesmo, é um dever denunciar o pecador, e assim o sublinha a Glosa: "Ou dize-o também a toda a Igreja, para fazê-lo passar maior vergonha. Depois de tudo isso deve seguir- se a excomunhão, a qual precisa ser feita pela boca da Igreja, isto é, pelo sacerdote que, quando excomunga, toda a Igreja excomunga com ele".9 Vale aqui também o princípio latino: corruptio optimi, pessima. Vemos o quanto é mais pernicioso um cristão que enverede pelos caminhos do mal do que, às vezes, os próprios maus, como assevera São Jerônimo:
"Pelas palavras ‘seja ele para ti como um pagão e um publicano', o Senhor nos dá a entender que devemos detestar mais quem com o nome de cristão pratica obras de infiéis do que quem é claramente pagão. Dá-se o nome de publicanos àqueles que buscam as riquezas do mundo e exigem impostos por meio de tráficos, fraudes, furtos e perjúrios horríveis".10 Ou, ainda, como ressalta São João Crisóstomo: "Contudo, nunca o Senhor nos mandou, a respeito dos que estão fora da Igreja, uma coisa parecida com a que nos manda aqui sobre a correção dos irmãos. Porque no tocante aos estranhos diz Ele: ‘Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra' (Mt 5, 39); e São Paulo: ‘Pois que tenho eu de julgar os que estão fora?' (I Cor 5, 12). Com relação aos irmãos, porém, nos manda que os repreendamos e os afastemos".11
Virtude da parte do acusador e do acusado
Nunca será demasiado insistir que a nota não só tônica, mas essencial, dessa denúncia deverá ser o amor ao próximo por amor a Deus, pois quem se encoleriza contra o seu irmão será réu no tribunal de Deus (cf. Mt 5, 22). A indignação egoísta e malfazeja, o sarcasmo, a zombaria, a vingança, etc., não podem penetrar nem sequer as zonas ocultas de nosso coração, pois ali está Deus para analisar nossos sentimentos e intenções.
Eles são a fonte de nossos atos, e por isso todo rancor deve ser erradicado com intransigência.
| "Onde dois ou três estão reunidos em meu |
| nome, aí estou Eu no meio deles" (Mt 18, 20) |
O poder dado a Pedro
"Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra será também desligado no Céu".
Devemos manifestar nossa gratidão cheia de júbilo por essa concessão feita pelo Redentor aos primeiros Pastores da Igreja e estendida a todos os seus sucessores.
| Devemos manifestar nossa gratidão cheia |
| de júbilo por esse poder dado pelo Redentor |
| aos primeiros Pastores da Igreja e estendida |
| a todos os seus sucessores |
E se a fórmula pela qual eles lhes são conferidos assemelha-se à que Jesus usou quando nomeou São Pedro chefe supremo da Igreja, é natural também que não lhes conceda senão uma jurisdição subordinada à autoridade do Supremo Pastor".14 Orígenes faz uma interessante observação sobre o plural: "nos céus", usado por Jesus quando se refere aos poderes dados a Pedro, e o singular ao dirigir-se aos Apóstolos: no céu, "porque este poder não é tão perfeito quanto aquele dado a Pedro".15 É de muito valor a apreciação de São Jerônimo a respeito desta passagem: "Como o Senhor havia dito: ‘E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano' (Mt 18, 17), e poderia acontecer que o irmão, assim desprezado, respondesse ou pensasse da seguinte maneira: ‘se vós me desprezais, eu também vos desprezo, se vós me condenais, eu também vos condeno', o Senhor deu aos Apóstolos um poder tal que não pode restar dúvida aos condenados por eles de que a sentença humana está confirmada pela sentença divina. Por isso diz: ‘Em verdade vos digo que tudo quanto ligardes', etc.".16 Cabe aqui também reproduzir as sábias considerações feitas por São João Crisóstomo: "E não disse àquele que preside na Igreja: ‘Liga quem assim peca', mas: ‘Tudo quanto ligares'. O que era deixar tudo em mãos do ofendido. E os vínculos permanecem indestrutíveis. Logo, o pecador terá de sofrer os últimos castigos; a culpa disso, porém, não a terá quem o denunciou, mas quem não quis submeter- se. Vê-se como o Senhor condena o pecador a uma punição aqui na Terra e a outra no além.
V - A humanidade sempre precisará de perdão
"Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a Terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos Céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles".
Sem nenhum receio, pode-se afirmar que nestes dois versículos encontra-se a síntese de toda a obra do Salvador. Jesus é o elo entre todos aqueles que tomam a deliberação de se unir em Seu nome, pois, nessas circunstâncias, Ele estará no meio deles. Por sua intercessão, será comovida a misericórdia do Pai e saberão os discípulos o que pedir, pois neles gemerá o Espírito (cf. Rom 8, 26), e assim, tudo obterão. Jesus estará agindo sobre todos e cada um, oferecendolhes Seu amor, Seu poder e Sua sabedoria. E essa é a verdadeira Igreja que vive de compaixão, misericórdia e piedade, pois a humanidade, que sempre pecará, sempre necessitará do perdão do Divino Redentor, dado por meio de Sua Igreja.
Fonte: (Revista Arautos do Evangelho, Set/2008, n. 81, p. 10 a 17)



